Arquiteto da folia: conheça o senhor de 72 anos que transforma sonhos em trios

Ex-empresário de Luiz Gonzaga, Waldemar foi discípulo de Orlando Tapajós

Correio da Bahia

O sossego da Estrada das Pedreiras, nas proximidades do Centro Industrial de Aratu (CIA), esconde um morador inusitado. Foi ali que, há mais de 20 anos, o ex-locutor de rádio Waldemar Sandes decidiu se estabelecer. É ali que, desde então, constrói gigantes de até 25 metros com capacidade sonora para embalar multidões: Waldemar é um dos maiores construtores de trios elétricos do país.

A paixão que virou trabalho começou bem antes, em algum momento da década de 1970. Ele não sabe dizer ao certo. “Na época que eu era gato”, brinca o hoje senhor de 72 anos. No currículo, só nomes que impressionam. Ex-empresário de Luiz Gonzaga, Waldemar foi discípulo de Orlando Tapajós, responsável por trios icônicos como a Caetanave.

“Eu vou morrer no trio elétrico”, diz ele, antes de anunciar – para os céus ou para quem quer que seja – que espera que esse acontecimento só se materialize daqui a uns 10 anos, pelo menos. “Espero acabar meus dias aqui. Se não em cima (do trio), perto dele”, diz Waldemar, diante de um sítio rodeado de trios. Lá, ficam estacionados cerca de 10, entre próprios e veículos de amigos, como os irmãos Macêdo, da banda Armandinho, Dodô e Osmar, e da Orkestra Rumpilezz.

Nesta época do ano, o sítio onde vive com a filha e a esposa não é tão silencioso. Durante todo o ano, além da companhia das duas, conta com a presença dos gigantes elétricos. Agora, a diferença é que ele precisa se acostumar com o ‘entra e sai’ de homens trabalhando com ferragens, motores e tintas. É a quantidade de pessoas que vai definir quanto tempo se leva para erguer um trio.

Se houver dinheiro para contratar 10, 20 homens, não se espante se o equipamento nascer em até 30 dias. “Aqui, barulho mesmo, só no Carnaval. Mas não me incomoda. Graças a Deus, não estou surdo, mas o som não me incomoda”, brinca. Waldemar prefere não falar em números, mas o CORREIO apurou que os gastos com a construção de um trio podem passar de R$ 1 milhão – só a carroceria, sem nenhum dos equipamentos de som, fica em torno de R$ 200 mil.

Confira a programação completa do Carnaval 2018

O início
Waldemar conheceu Orlando Tapajós quando o Rei do Baião foi fazer um show em Alagoinhas, no Nordeste do estado. De última hora, o palco quebrou. Só que a Caetanave, trio elétrico criado por Tapajós em 1972, fazia um show na praça da cidade.

Gonzaga, então, fez o show na Caetanave. O universo uniu, assim, os futuros mestres dos trios elétricos – Tapajós e seu futuro pupilo, Waldemar. Primeiro, veio como um convite para que ele os acompanhasse a uma inauguração de um estádio em Itabuna, no Sul do estado. Queriam a experiência dele para ser locutor do trio elétrico. “Naquela época, locutor de trio elétrico era uma pessoa importante. Eu fiquei ali e tomei gosto pela coisa. Fui ficando e ‘trioeletrizando”.

A amizade dura até hoje. Foi através de Waldemar, inclusive, que o CORREIO encontrou Orlando Tapajós – e mostrou na edição de 28 de janeiro como vive hoje o homem de 84 anos: em uma quitinete, no Imbuí. Antes, o pupilo já descrevia o caso de Seu Orlando. No dia do encontro, enquanto Tapajós falava, tentava – em alguns momentos, sem êxito – segurar a emoção. “Para mim, ele é uma das figuras mais importantes do trio elétrico. É uma figura importante que está morrendo sem receber nada. Divulgou essa Bahia por anos sem receber nada”.

Foi depois da repercussão da entrevista intermediada por Waldemar, que a Associação Baiana de Trios Independentes (ABTI) decidiu pagar uma pensão mensal vitalícia no valor de R$ 6 mil. Estava prevista ainda uma homenagem ao mestre de Waldemar neste sábado (10) – no meio do circuito Dodô (Campo Grande).

Foi Waldemar (de azul) quem levou o CORREIO até Orlando Tapajós (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

Enquanto conversa, Waldemar parece modesto. Quem dá o tom mesmo é o amigo Ari Andrade, vice-presidente da ABTI. “Ninguém faz trios como ele. E ele nunca faz nenhum trio igual”.

De fato: já foram mais de 100, ao longo da vida, e nenhum semelhante a outro. Waldemar não desenha, não projeta a criação antes. Tudo “vêm” enquanto trabalha – é praticamente intuitivo. Parece que as coisas fluem.

“Sou autodidata. Nunca tive formação de nada, aprendi fazendo”, confirma. Foi assim que fez as primeiras turbinas de um trio que Tapajós construía. Na época, o mestre dos trios não tinha conseguido fazer as turbinas. Waldemar, que nunca tinha lidado com uma solda na vida, se meteu com as tais turbinas. Conseguiu fazer uma. Depois, reproduziu a primeira e terminou a segunda.

O primeiro trio também veio dessa forma. Foi justamente por intermédio de Osmar, inventor do trio elétrico, com Dodô. “Ele disse: se o doutor do trio elétrico que é Tapajós não acertou fazer a turbina e você fez, um trio é moleza”, lembra Waldemar, citando Osmar. No fim, o trio saiu. Foi embora para Vitória de Santo Antão, no interior de Pernambuco.

Outras oportunidades vieram através de Osmar. Uma das mais importantes foi a aproximação com os Novos Baianos. Na época, lá por 1974 ou 1975, os Novos Baianos precisavam de um carro. “Me encontrei lá com Paulinho (Boca de Cantor), (Luiz) Galvão, Pepeu (Gomes)… Fui fazendo outras coisas do trio elétrico e foi por aí”.

‘Muito tudo’
Hoje, seus trios desfilam, principalmente, para a prefeitura e para o governo do estado. Entre os cerca de 10 que esperavam no sítio no dia em que o CORREIO esteve no local, pelo menos três eram para os órgãos públicos – escolhidos através de editais. “Aquele ali é o Albatroz, que faz prefeitura. Vários já tocaram nele: Luiz Caldas, Lazzo (Matumbi), Gerônimo…, “, cita, enquanto aponta para um dos trios. Mais adiante, apresenta o trio Bessa – que também vai para carregar os artistas da programação da prefeitura – e o trio Elpídio, que vai para o governo do estado.

Waldemar ainda trabalha na ‘Fobiquinha’, o trio de Armandinho, Dodô e Osmar. Outro veículo, menor, também pertence aos irmãos – nele, vai tocar a Escolinha da Guitarra Baiana, também no Furdunço.

O construtor de trios reconhece que suas obras – e de outros tantos construtores – andam muito grandes e pesadas. “Estão ‘muito tudo'”, diz. Defende uma reformulação e novas medidas, mas também acredita que nada é de uma hora para outra. O maior lamento, por enquanto, é que o trio deixou de ser ‘made in Bahia’. Embora tenha sido inventado aqui e tenha a cara da Bahia, parece que agora, todo mundo faz trio. Pelo Brasil, em qualquer canto, não é difícil achar um construtor.

Ele diz que não se deslumbra com artistas. Quando vê algum deles numa criação sua, no meio da folia, não tem arrogância ou fascinação. “Eu penso: olha meu amigo ali!”, diz, antes de citar nomes como Bell Marques, Sarajane e Luiz Caldas, para quem construiu trios ao longo da carreira. Adiciona, também, blocos como Muquiranas, Ilê Ayê, Cortejo Afro e Malê Debalê.

Há seis anos, ele não vai mais à rua, nos dias de Carnaval. Diz que, aos poucos, está tentando passar para os filhos. “Todos os meus filhos foram criados pelo trio elétrico. Isso está no DNA deles”, defende. Dos quatro que teve, três já trabalham com ele e lideram a operação no período momesco. “Na hora que o trio está na rua, acabou meu trabalho”.

Este ano, volta aos circuitos para gerenciar a Cidade do Trio Elétrico – como o CORREIO adiantou, com exclusividade, a folia deste ano contará com um espaço para garantir a infraestrutura, chamada informalmente de ‘UTI do Trio’. Será o Dr Waldemar e vai garantir o ‘socorro’ e conserto rápido desses equipamentos, em um terreno na Rua da Graça.

Vistoria dos trios acontece até durante a festa
A vistoria dos trios elétricos e carros de apoio que vão desfilar no Carnaval de Salvador este ano seguiu até a última sexta (9). Pela primeira vez, como adiantou o CORREIO, a vistoria acontece na Orla da Boca do Rio – até o ano passado, o procedimento era realizado no Parque de Exposições.

Ao CORREIO, o membro do Conselho Municipal do Carnaval (Comcar) e coordenador do Carnaval 2018, Paulo Leal, explicou o motivo da mudança no local da vistoria. A decisão, segundo ele, foi para que os trios sirvam como atrativo turístico. “O trio elétrico chama a atenção, pode trazer visibilidade turística. Lá no Parque de Exposições, ninguém via. Agora, vai ser como uma vitrine”, afirmou, na ocasião.

Foram 121 veículos que deram entrada na área montada no antigo Aercolube, sendo que 120 concluíram a vistoria e receberam autorização para sair nos circuitos da folia de Salvador. Apenas 1 caminhão-trator, que serviria de carro reserva, desistiu da vistoria.

Na lista dos itens avaliados estão: protetor de rodas, guarda-corpo (espécie de proteção para as pessoas em cima do trio), altura do veículo, largura, comprimento, peso, capacidade, funcionamento da comunicação entre cabine e palco, gerador, e mais a documentação do veículo e do condutor e estrutura do posto médico.

Os inspetores também verificaram as condições de sanitários e lanchonetes, que precisam atender às normas da Vigilância Sanitária. Tudo estando em ordem, um adesivo é colocado no para-brisa do trio. Um dos coordenadores da vistoria, major Sérgio Almeida alertou para a necessidade de dar atenção a pequenos detalhes. “É comum lâmpadas queimadas e fios desconectados, problemas fáceis de resolver”, avisou.

A ação foi executada por uma força-tarefa formada pelo Departamento de Polícia Técnica (DPT), Bombeiros, Departamento Estadual de Trânsito da Bahia (Detran), Conselho Regional de Engenharia e Agronomia da Bahia (Crea), secretarias municipais de Ordem Pública (Semop) e da Fazenda (Sefaz), Vigilância Sanitária de Salvador (Visa), além da Superintendência de Telecomunicações da Secretaria da Segurança Pública (SSP-BA) e da Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia.

De acordo com o presidente da Saltur, Isaac Edington, o serviço de vistoria é essencial para garantir que os veículos circulem nas melhores condições nos circuitos, dando maior segurança aos foliões. “Vale ressaltar que a vistoria dos carros e o licenciamento dos blocos são obrigatórios para poder participar do Carnaval”, explicou.

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