Evaldo Braga

Evaldo Braga em biografia de tragédias e enigmas

Escritor traça trajetória de cantor que morreu no auge do sucesso
Evaldo Braga, "O Ìdolo Negro" - Foto: Divulgação Editora Noir
Evaldo Braga, “O Ídolo Negro” – Foto: Divulgação Editora Noir

JOSÉ TELES

O cantor fluminense Evaldo Braga, o Ídolo Negro, é o maior enigma da história da MPB. Falecido há 44 anos, no auge do sucesso, ele não deixou herdeiros, não se conhecem parentes seus, portanto, não se sabe quem embolsa o dinheiro dos seus direitos autorais. Sua trajetória artística foi curta, de 1970 até 31 de janeiro de 1973, quando a Variant TL em que viajava, com seu empresário, Paulo Cesar Santoro, e guiada por Harley Lins, um motorista recém-contratado, chocou-­se contra uma carreta, na BR­3, no Estado do Rio. Morreram os três. Vinham de Belo Horizonte, depois de uma apresentação (na época, ele fazia uma média de 70 por mês).

A morte gerou uma comoção nacional, Evaldo Braga tocava no Brasil inteiro com seu sucesso mais conhecido, Sorria Sorria. Porém se sabia muito pouco de uma figura tão pública que, ele mesmo se encarregava de embaralhar a própria biografia, adubando­-a de fantasias. No livro Eu Não Sou Lixo: A Trágica História do Cantor Evaldo Braga (Editora Noir), o escritor baiano que mora em São Paulo há 20 anos Gonçalo Junior (autor da elogiada biografia do compositor Assis Valente) tenta decifrar esta “charada, embrulhada num mistério, dentro de um enigma” (definição de Winston Churchill sobre a Rússia).

“Até a idade dele está errada nos sites e blogs. Evaldo estava com 25 anos quando morreu, e não 27, como se lê por aí. Confirmei na certidão de nascimento que ele entregou à Polygram quando assinou contrato para o primeiro LP, em julho de 1970. Desde que sua morte já apareceu muita gente se apresentando como mãe, irmão, amante, filho, namorada, mas ninguém conseguiu provar o parentesco”, conta o escritor.

DADÁ MARAVILHA

A seleção brasileira tinha conquistado o tricampeonato mundial no México pouco menos de um mês antes de Evaldo Braga ingressar no cast da mais importante gravadora do país na época. Entre os campeões estava Dario, o Dadá Maravilha, centroavante do Atlético Mineiro, colega de Evaldo Braga no Serviço de Amparo ao Menor (SAM), para onde foi levado depois de ser preso por furto. Estranhamente, foi exatamente Dario a última pessoa a falar por telefone com Evaldo Braga. Quando soube que ele se encontrava em Belo Horizonte, Dario ligou para o colega de infância.

Os dois não se davam muito bem no SAM: Dario chamava Evaldo de Pato Rouco e era chamado de Perna de Pau. Só conseguiu falar com ele tarde da noite. Conversaram, emocionados, e acertaram um encontro dali a dois dias no Rio, para onde o Dario ia se mudar, contratado pelo Flamengo. Dadá soube da morte de Evaldo Braga assim que acordou na manhã seguinte. Embora os dois não fossem próximos no SAM e jamais tenham se encontrado depois que saíram de lá, o autor traça a história de Dario em paralelo à de Evaldo Braga.

“Eu quis surpreender o leitor. Começo falando sobre Dario, e o leitor se pergunta o que ele tem ele a ver com o cantor. Mais adiante volto a ele, e as coisas finalmente se tornam claras. Quis também mostrar o ambiente violento em que Evaldo viveu. Dario me contou isso com muitos detalhes”, explica Gonçalo Junior. São duas personalidades diferentes. Enquanto Evaldo procurava se manter na linha, Dario fugia do SAM para cometer assaltos (num destes, seu parceiro morreu atingido por uma bala no pescoço). Enquanto Dario não se envergonha de contar seu passado e revela, por exemplo, que testemunhou a mãe atear fogo às vestes, Evaldo Braga fantasiava. Revelou em uma entrevista ser filho de uma prostituta que o abandonou no lixo (o que o inspirou fazer a canção Eu Não Sou Lixo): “Ele foi a Campos tentar encontrar a mãe, já famoso, e um senhor o abordou na rua e contou esta coisa da prostituta. Ele assumiu esta versão. O mais provável é que ele tenha sido filho de uma empregada doméstica com um homem casado. Chegou a dizer que a mãe tinha morrido queimada, o que realmente aconteceu com Dario”, explica o biógrafo. Para ele o mais perto da verdade é que Evaldo Braga foi adotado por uma professora chamada Noêmia Braga, que lhe deu o sobrenome. No entanto, mais um enigma: não se sabe o motivo, mas ela o entregou ao SAM.

SUCESSO

Com um passado embaçado, Evaldo Braga ia delineando o presente. Bem apessoado, desenvolto, entrou e saiu de vários empregos, mas optou, curiosamente, por ser engraxate. Trabalhava na calçada do prédio da antiga Rádio Guanabara, no Rio. O objetivo era conhecer os artistas e apresentadores. Permitiram que o rapaz simpático dormisse nas dependências da emissora, onde ele conheceu o cantor Nilton César, de quem acabaria se tornando divulgador e amigo (estenderia os serviços a Lindomar Castilho).

Assim, como divulgador, tinha acesso a todas as emissoras cariocas. Foi aí que conheceu pessoas influentes no meio que conseguiram fazer que as gravadoras se interessassem em ouvir a voz do engraxate. Se Dario, atualmente com 71 anos, aparenta ter superado os traumas da infância, Evaldo Braga nunca desistiu de encontrar a mãe. Gonçalo Junior sustenta a tese de que procurou a fama para que a mãe o procurasse. No fim, não se sabe se isso aconteceria.

TRECHO DO LIVRO

“Queria descobrir de uma vez por todas quem era a mãe. Certa tarde, teria encontrado na rua um senhor já bem idoso que disse ter conhecido uma mulher com as descrições que ele deu. E contou que ela era, na verdade, uma prostituta conhecida em Campos e que havia muitos anos teve uma criança e a abandonou numa cesta de lixo de uma casa de família. Esta teria recolhido o recém-nascido, mas preferiu não o criar e o deixou num orfanato. Depois de uma série de detalhes que aquele homem lhe contou – não revelou quais –, Evaldo disse ter saído de lá convencido de que a criança da lixeira era ele próprio. Navarro contou ainda a Araújo sobre o afilhado musical: “A partir desse dia, a vida de Evaldo acabou”. Segundo ele, o cantor se acostumou a chamá-lo de pai, embora a diferença de idade entre os dois fosse de apenas quinze anos. “Ele que não bebia e não fumava (depois da informação sobre sua origem) começou a beber e a fumar que nem um louco. E, um dia, chorando, disse para mim: ‘Pai, eu não sou lixo, minha mãe não podia ter feito isso comigo, por que e1a fez isso, meu pai?’ Eu tentava consolá-lo, orientá-lo da melhor forma possive1, mas não teve jeito”. De acordo com Navarro, Evaldo dizia: “Eu não quero mais saber de nada, não. Eu quero morrer, eu quero morrer”

A história da mãe prostituta e da lata de lixo não seria confirmada por Nilton César, uma das pessoas que mais conviveram com o jovem cantor na intimidade. “Evaldo comentava alguma coisa sobre isso, mas a bem da verdade ele não sabia ao certo o que tinha acontecido. Ninguém sabia, era tudo especulação, invenção, e ele absorvia tudo, acreditava no que lhe diziam e ficava arrasado durante dias. Ele sempre falava algo sobre o abandono dos pais, principalmente o fato de não ter conhecido a mãe. Mas nunca se confirmou essa história do lixo. Ele não tinha certeza de nada. Talvez a gravadora pegou no ar, mas não sei. Só abro a boca quando tenho certeza”.

Eu Não Sou Lixo: A Trágica História do Cantor Evaldo Braga, de Gonçalo Junior ­ Editora Noir, 308 páginas, R$ 49,90 (em encomenda no site da editora ­ editoranoir.com.br­, com frete grátis)

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